Newsletter 2
A Engenharia Química, os desafios ambientais e a problemática da transição energética, eis o lema desta edição. A Engenharia Química tem sem dúvida um papel fundamental a desempenhar para mitigar o impacto do ciclo de vida do processo e do produto, tendo em vista o melhoramento da qualidade de vida da sociedade e a evolução dos processos em simbiose com o ecossistema natural. Esta visão integrada traz necessariamente um nível de exigência e de complexidade acrescidos na condução da operação dos processos químicos e biológicos, bem como na inovação e desenvolvimento de novos produtos e no «scale-up» industrial da sua produção, de modo a torná-los mais sustentáveis. A área disciplinar de Engenharia Química proporciona metodologias e abordagens sistemáticas na resolução destes problemas complexos, potenciando soluções tecnológicas que asseguram simultaneamente critérios de qualidade do produto, ambientais e de segurança. Exemplos disso são as medidas resultantes da intensificação e integração de processos, que visam maximizar a reutilização de produtos e subprodutos e minimizar o consumo de água e de energia. Estão na ordem do dia linhas de ação que contribuem decisivamente para acatar estes novos desafios tais como, para dar alguns exemplos, dispor de mais e/ou melhor instrumentação, implementar sistemas avançados de monitorização e supervisão dos processos, desenvolver «digital-twins» para apoio à decisão.
Na linha desta temática, contamos com a contribuição da Eng.ª Célia Pedro que nos apresenta uma resenha sobre a Engenharia Química, Ambiente & Transição Energética.
Temos ainda também a perspectiva do DEQ no Mundo, através do percurso académico e experiência profissional do Doutor Nuno Faísca.
Nesta newsletter apresentamos também uma retrospectiva dos principais eventos
e notícias de 2022.
Boa leitura.
Coimbra, 31 de Março de 2023
As alterações climáticas é uma das maiores ameaças deste século, os gases de efeito de estufa (GEE) resultantes da ação humana são os principais contribuidores. Um dos componentes maioritários no GEE é o CO2 (dióxido de carbono), predominantemente com origem na queima dos combustíveis fosseis.
Estudos indicam que outras atividades como agricultura e desflorestação massiva como fonte de combustível, levam à decomposição do material vegetal e libertação do carbono do solo resultando em GEE, pois as florestas têm um papel fundamental na absorção de CO2.
O aumento global de temperatura na Terra representa uma preocupação generalizada não só a nível científico, mas também político. Já se sente ameaça das zonas costeiras devido à subida do nível do mar provocado pelo fenómeno de fusão dos glaciares, que se calcula que representem 10% da superfície da terra.
Nos países socioeconomicamente menos desenvolvidos, verifica-se o aumento da desigualdade de direitos humanos. Os eventos climáticos devastadores, são mais sentidos nas populações mais desfavorecidas como África, por exemplo, que podem enfrentar dificuldades extremas no que diz respeito ao direito à saúde devido à indisponibilidade de água potável e alimento.
A transição Energética é o principal instrumento para travar a subida de temperatura global do planeta. Os objetivos são reduzir a necessidade dos combustíveis fosseis recorrendo a energia de baixa ou zero emissões de carbono, baseada em fontes renováveis, as chamadas energias verdes.
O Parlamento Europeu fixou a nova diretiva das Energias Renováveis (RED II) que estabelece a meta de 32% de energia proveniente de fontes renováveis na União Europeia em 2030.
Apesar da urgência da transição energética e dos avanços políticos através de Normas Europeias com metas delineadas é essencial que continue a ser proporcionado apoio governamental para o desenvolvimento de novas tecnologias mais eficientes.
Ainda que haja uma forte aposta nas energias renováveis, como a energia solar, eólica e hidráulica, estas também apresentam desvantagens. As tecnologias utilizadas para a produção de energia renovável, têm um retorno de investimento longo, necessitando de apoios governamentais para serem economicamente sustentável. São fontes de energia que dependem de condições climatéricas, isto é, dos ciclos de iluminação e meteorologia, sendo que os períodos de produção podem não corresponder às necessidades de consumo, existindo a necessidade de armazenagem. Por esse motivo, é fundamental que seja feito também investimento no desenvolvimento tecnológico de baterias que podem acumular esta energia.
Muitas vezes, em sede de política ambiental, o resultado final do procedimento legislativo traduz-se em legislação simbólica, de aplicação limitada se não mesmo impossível. Tais peças legislativas são como aqueles objectos decorativos que se colocam em cima das mesas para mostrar às visitas mas que removemos sempre que é preciso usar a mesa.
A legislação simbólica é inócua no que respeita à solução dos problemas ambientais. Mas não é inócua quando aumenta a burocracia e os custos de contexto, tornado mais difícil a vida das famílias e das empresas. E essa legislação simbólica torna-se perigosa quando dificulta a continuação de soluções técnicas existentes no mercado, comercializadas por preços razoáveis e com níveis de protecção ambiental adequados.
A economia circular é uma boa ideia mas não é uma ideia nova. Em Portugal há inúmeras áreas de actuação em sede de gestão de resíduos em que o sector privado oferece soluções integradas que são uma aplicação das melhores intenções da economia circular anunciada por Bruxelas.
Temo que o legislador português, quando chegarmos à fase da transposição das futuras Directivas, queira acrescentar mais uma dose de burocracia (“gold-plating”), tornando ainda mais difícil a aplicação das normas da União Europeia e ameaçando a continuidade dos exemplos virtuosos de que dispomos em Portugal em matéria de gestão de resíduos.
Engª. Célia Pedro
Escrevo e apresento slides diariamente para governantes, presidentes de companhias privadas e fundos de investimento, mas falar com vocês é uma tarefa complicada porque me obriga a fazer uma introspeção do que alcancei ao longo dos últimos vinte anos desde que completei o curso de Engenharia Química em 2002.
A primeira memória que tenho é do grupo fantástico que tive a felicidade de conviver durante 5 anos. Na altura entravamos 40 por ano e a mínima duração do curso era de 5 anos, e foi de facto um grupo especial. Era um grupo diverso, indivíduos com capacidade de trabalho excepcionais, com personalidades e ambições muito distintos, e do qual guardo memórias muito importantes para mim. Tantas histórias que não cabem nesta página nem tenho mestria no uso da língua Portuguesa para descrever o que vivemos. Tenho saudades das conversas do nosso saudoso Senhor Vítor, do sorriso da Dona Mafalda e do olhar de pânico do Senhor Gândara quando invadíamos a sala dos terminais no Chimico, nem sempre muito silenciosos.
Com a perspectiva de ter estudado e lecionado mais tarde no Imperial College em Londres, digo com muito orgulho ter estudado Engenharia Química em Coimbra. Tive professores humanos e de elevadíssimo calibre científico. Corro o risco de levar reprimenda quando visitar o DEQ, mas como não mencionar a Professora Maria Margarida Figueiredo, a Maria Helena Gil, o Lino, o Pedro Nuno ou o Fernando Bernardo como exemplos – do Jorge Coelho tenho outras histórias que posso contar com um fino e tremoços na praça. Mas a minha carreira profissional foi marcada pelo Professor José Almiro e Castro e o Professor Pedro Saraiva.
Durante o meu projeto de investigação no quinto ano, em Setembro de 2001, comecei a trabalhar com o Professor Almiro na modelação e simulação em Fortran 77 do reator piloto de polimerização de VCM da CIRES em Estarreja. Comecei a viajar para Estarreja nessa altura e foi a minha primeira experiência industrial. O meu estágio profissional formalizou-se em 2002, depois de terminar o curso com a cadeira de química orgânica. A CIRES foi assim o meu primeiro emprego como Engenheiro Químico – um grande bem-haja ao Pedro Gonçalves, Alexandre Henriques e ao Paulo Resende.
Foi nessa altura que comecei também a trabalhar com o Professor Pedro Saraiva – PRODEQ e Bluepharma. Depois de ter concorrido sem sucesso a uma bolsa de doutoramento pela FCTC, surgiu a hipótese de emigrar para Londres e fazer um doutoramento no Imperial College em Londres em parceria com o Professor Stratos Pistikopoulos. Depois de partir uma perna a jogar futebol, assistir à derrota de Portugal na final do Euro, emigrei para o Reino Unido em Setembro de 2004. Foram 4 anos de muito trabalho, publiquei dez capítulos em livros sobre optimização, seis artigos em revistas de renome mundial como a Automatica e o Journal of Global Optimization, e mais de 20 artigos em conferências. A orientação do Professor Pedro Saraiva e a memória do Professor Almiro estiveram sempre comigo nesta aventura.
Quando tudo fazia prever uma carreira académica nos Estados Unidos, decidi que o mundo académico não era para mim. Como acabei o doutoramento em 2008, as oportunidades de emprego em Londres eram reduzidas e decidi aceitar um convite de uma spin-off do Imperial College, a Process Systems Enterprise (gPROMS, agora parte da Siemens), e fui trabalhar com o Professor Costas Pantelides. As coisas não correram como desejado e mudei-me para a Aspen Technology em 2009. Foi lá que me comecei a cruzar com os filhos do DEQ, neste caso a Patrícia Aguiar.
Passados dois anos e meio, e farto de conduzir duas horas por dia até Reading, decidi que estava na altura de abandonar os simuladores, os fluxos de energia e as discretizações com grelhas exponenciais, e abracei em 2011 um novo desafio como consultor na Nexant-Chemsystems (agora NexantECA). Tive uma exposição muito grande ao mundo empresarial e à componente comercial de qualquer investimento na indústria química.
Talvez por falha minha, mas julgo que este talvez seja o tópico mais em falha na minha formação em Engenharia Química em Coimbra. A capacidade de projetar preços de produtos químicos, matérias-primas, volumes de consumo e produção é tão importante como desenhar e optimizar os processos químicos e as operações unitárias. A perspectiva técnica que aprendi no DEQ é sem dúvida uma das minhas maiores vantagens profissionais, mas tive de aprender bastante rápido como estruturar financeiramente um empréstimo para construir uma fábrica petroquímica (a Professora Gaudêncio, matava-me se escrevesse planta) ou como fazer uma due diligence a uma companhia privada.
Nos últimos 11 anos tive muita sorte nos projetos em que estive envolvido, e como referência fui o representante dos bancos no empréstimo à Dow e Aramco para a construção da Sadara Chemicals em Al Jubail na Arábia Saudita - onde encontrei mais filhos do DEQ, Arménio Costa, Arnaldo Costeira, Norberto Sousa e o Carlos Preciso. Mais recentemente liderei a equipa que fez o technical due diligence, na aquisição da Oxiteno pela Indorama.
Em Junho de 2022, aceitei um convite da Wood Mackenzie em Londres para liderar e apoiar a expansão das nossas actividades na indústria química. Neste percurso continuo em contacto com o Professor Pedro Saraiva, e com grande parte dos meus colegas de curso. A única coisa que ainda atrapalha, é como traduzir Licenciatura e explicar que cinco anos de licenciatura era só o mínimo – se eles soubessem que tivemos de aprender os filtros de Kalman.
Pelo caminho, tenho passaporte da Grã-Bretanha, fui perdendo o cabelo, e tenho duas filhas, a Isabella de mãe Siciliana e a Beatriz com a minha companheira actual de Trinidad e Tobago.
Abraço e boa sorte,
Nuno Faísca